Um dia desses, assisti mais uma vez ao filme "O Náufrago", com Tom Hanks. E assisti não porque tenha sido esse filme algo especial entre os filmes de que gosto. Mas simplesmente por causa do Sr. Wilson, criado por um colega professor, o Bonato, tão desprestigiado de fios capilares quanto ou mais que eu.
No filme, depois de ficar perdido numa ilha deserta e passando a maior das agruras, o protagonista lança mão de uma bola de vôlei, pinta nela uma carinha e a chama de Wilson. Como não tem ninguém para conversar, conversa com Wilson...
Eu, às vezes, também faço isso. Olho para a cara dos alunos, eles nem aí. Olham pro lado, eles cochicham, eles gargalham, eu não existo. Então finjo que eles também não existem. Faço um desenho na lousa, com a cara do Wilson do filme.
Viro as costas para os alunos e dou aula para o Sr. Wilson: "Está entendendo, Sr. Wilson? O Trovadorismo foi um movimento literário da Idade Média em que imperava o espírito teocentrista e onde a maioria, a plebe, o povão, a massa, não podia mudar de classe social por que Deus não permitia.”
Devagar, a sala vai ficando silenciosa, e um aluno, geralmente lá do fundão, arremata: - professor, poderia repetir? Perdi a última parte.
Última parte... Como se eu fosse algum idiota.
Gosto da figura do Wilson do filme do Tom desde que assisti a ele pela primeira vez. E em cada reprise lá estou eu novamente. Principalmente por causa da cena triste. Aquela cena em que o Wilson é arrastado pelas ondas e o herói, nadando, vai atrás, mas não consegue resgatá-lo.
O protagonista chora. Também fico com vontade chorar, mas aguento. O meu Wilson navega em águas mais amenas...
Por isso não devo reclamar de ser professor. É gratificante ver os olhos que brilham quando acertam uma questão que, embora de simples solução, para aluno noturno de escola pública esse simples acerto é um verdadeiro tesouro...

1 Comentário:
Acrescente-se ao seu glorioso currículo: você é, também, um ARTE-EDUCADOR e dos bons, amigo Nelson.
A possibilidade do professor, diante dos conteúdos pedagógicos já bem definidos, em tempo exíguo, numa sala de aula, não raro nos dias atuais de uma escola pública, com forte pendor à hostilidade,dar-se ao exercício da abstração, é ótimo recurso pedagógico - penso. É oportunidade que se dá a um bom número de alunos(pessoas), saber que a relação professor-aluno(pessoas) é um exercício de vida em si, que assim, ultrapassa os limites obtusos de algumas práticas escolares. É quando se pode educar para a vida, para ser gente, ser social que emana habilidades e paixões.
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