Pequenas crônicas que retratam a realidade tanto dentro das escolas quanto dentro do Brasil, este meu Brasil brasileiro e bem-humorado Brasil...

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Sexta-feira, Maio 07, 2010

Mãe, minha mãe, toda mãe...

Minha mãe se foi em 2008. Um dia antes, olhei diretamente em seus olhos opacos e quase frios que me fitavam já de um lugar desconhecido e pedi para que ela se fosse naquele momento, ali na minha frente. Mamãe não  me atendeu. Passou mais 24 horas num torpor lancinante e longe de mim, um dia depois, não mais era.

Nunca mais escrevi nada sobre ela. Não lhe dediquei nenhum poema. Não lhe falei de minha dor. Não lhe roguei a minha solidão. Não lhe falei do buraco em meu peito. Como quando soube que ela estava doente. Naquele dia, escrevi o que se segue:

"A vida se faz por meio de um turbilhão de manifestações, todas elas mais ou menos previsíveis, porém quase nunca acontecidas quando estamos a esperá-las...

E agora...

Agora esse buraco no meu peito porque um daqueles peitos que me deu esssa mesma vida que possuo sonambulamente está doente, invadido por um nódulo já constatado como nocivo.

Chorar? Lágrimas secas não se derramam por sobre face alguma, mas dilaceram tudo por dentro como ácido fulgurante. E abrem o buraco...

O buraco no peito. No meu peito um buraco, e no peito esquerdo de minha mãe a razão do buraco no meu peito...

Peito. Peito. Peito.

E eu sem peito para encará-la, confortá-la...

E quando finalmente seus olhos depararam-se com os meus, aqueles olhos tristes, sofredores, fizeram emergir uma vontade férrea de viver, num brilho ardente de alguém que diz: 'Vamos lá, filho. Ainda não é o momento de minha Pasárgada...'

E eu, até aqui sem bandeira, assumo a bandeira de, junto com minha mãe, contornar essa terra de Bandeira..."

 Assim, 2010. Maio de 2010. Um novo Dia das Mães. Daqui por diante, mãe, seu dia é seu dia. Mãe não vai. Mãe nunca vai. E você está aqui. Benção, mãe. Agora entendi porque não quis que eu a visse morrendo. É porque mãe não morre nunca.

6 Comentários:

Nayara disse...

"É porque mãe nunca morre". Que frase linda. Que texto maravilhoso! É sempre bom ler um bom texto e sentir o que o escritor sente. Parabéns!

Nelson da Cunha disse...

Feliz pelo seu comentário no blog, Nayara. Mostra a sua sensibilidade e a sua disposição para entender que a vida é bonita e precisa ser vivida com muito otimismo. Apesar da morte, que tb faz parte da vida, porque quem morre só morre, não se desintegra.

Tânia "Clorofila" disse...

É verdade, Nelson. Mãe não morre nunca. São tantos e tão fortes os laços criados entre mães e filhos, que acabam por se tornar indissolúveis.
Mesmo quando em planos diferentes, a mãe sempre estará ligada ao seu filho, que por sua vez, sempre sentirá o conforto de seu amor.

Um abraço, meu amigo

carlota disse...

Ai Nelson...então não sabes que mãe é pra sempre???Quem disse que ela se foi?? Feche os olhos, pode enxergá-la não é? E se ficar em silêncio pode ouvi-la, pois então ela tá ai, ela vai sempre estar ai do seu lado, pede um conselho pra ela pra ti ver, como na mesma hora ela te responde!!!!!

Laura_Fiona disse...

Oi Nelson. Lindo o texto. Quase perdi minha mãe, por coincidência também em 2008, quando ela ficou 40 dias na UTI, e segundo os médicos só pode se recuperar por ainda ser nova. Mas já vi a dor que era todos os dias que fui visitá-la e ver ela sedada no hospital. Graças a Deus ela se recuperou e continua aqui comigo! Mas realmente mães nunca morrem.. em qualquer lugar que elas estiverem, sempre estarão com a gente. Um abraço!

Nágila disse...

Lindo!!
Chorar prá que?
Amor nunca acaba...nunca morre...
O amor não conhece as palavras...nunca e fim....uma vez que só tem começo...e a eternidade para brilhar.
Estamos ainda engatinhando por sentir a necessidade de um corpo presente...quando na verdade o amor ultrapassa todas as dimensões.
Felizes somos nós....por termos o privilégio de sentir...mesmo que ainda de forma embrionária...o requinte dos sentimentos....o amor...este que é melhor representado na figura de uma pessoa que temos a certeza dessa reciprocidade...a nossa mãe...ela que sempre está presente...mesmo ausente...mas sempre constante em nossos corações....e amor lá precisa de matéria?

 
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