Pequenas crônicas que retratam a realidade tanto dentro das escolas quanto dentro do Brasil, este meu Brasil brasileiro e bem-humorado Brasil...

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Sexta-feira, Abril 09, 2010

Os nós da solidão e a solidão de todos nós

É, a solidão assola e alitera, e isso soa música, de lira, desnudando a tristeza!

A pior redundância da solidão é que ela é fortemente democrática. É igual para todos. Você sente o vazio arrancar-lhe as entranhas do peito e uma espécie de ar frio vai tomando conta do ambiente e, em reação com este, sedimenta blocos de gelo nos sentimentos de todos nós.

Todos nos querem fortes, mesmo que enfraqueçamos nossa vontades, nossos sonhos, nossas esperanças... Todos nos querem pessoas, e se esquecem de que somos também animais...

Todos nos querem utilizando a lógica, o raciocínio, a razão, o dois mais dois, e se esquecem de que temos também um coração...

Para muitos, ser bom é se anular, ver os dias passar naquela rotina incessante e não sair dos trilhos...Sofrer e gostar do chicote passeando em nosso dorso...

E quando você atende a tudo isso, vem a solidão. A democrática solidão. Igual generalizante, pois todos aqueles que se anulam só terão uma única forma de vivenciar essa solidão.

Ela não é criativa, ela é uma vestimenta que se coloca de cima pra baixo e você democraticamete tem de aceitar a ditadura da democracia, sob pena de não ser considerada uma boa pessoa, honesta, ciente dos deveres, morais, religiosos, humanos...

Só fica aquele vazio, aquele vazio igual, e aí ficamos parecendo marionetes, sambando e valsando ao sabor da vontade alheia, que gosta da aparência com a qual nos revestimos...
O pior da solidão é ser só, junto! Você fica parecendo um fantasma atravessando paredes... Mas as paredes não o atravessam. Tudo em volta é só pedra, e tão nada coração!

Mas quem quer falar em coração?

Melhor ser alma penada no castelo da solidão. E ser só, só. E quanto pior, pior, porque melhor do que o pior é pior ainda!

E só!

É muito difícil aceitar a morte. Principalmente porque ela se manifesta como uma ruptura radical entre um ente e outro... De repente, já não está mais aqui aquele que sempre esteve, que chorou, que sorriu, que brigou, que voltou a sorrir...

Tudo se esvai, e vai... E vai para não voltar... Isso dói... E machuca... E faz chorar... Faz-nos chorar tanto que às vezes nos esquecemos daquele que está vivo, aqui, bem do nosso lado... Mas que tanto parece morto...

Para chorarmos por ele depois, quando ele efetivamente morre!!!

É o Cabral...

Não o do descobrimento, mas o de Recife... Falando do cão sem plumas, velho Capiberibe dividindo duas terras, e paradoxalmente, a sua poesia duas águas... Vazando água... Não o Cabral, mas um cão sem plumas, achacado, esbofeteado, espavorido, cuspido, escarrado...

Assim é o rio. O rio que somos todos nós...

Em nossa trajetória, assoreados, feiosos, quase mortos, a visão de um mar que nunca vem...

Um cão sem plumas a contemplar as mãos que batem, os pés que chutam, a boca que escarra...

Um cão sem plumas pedindo um sorriso, um carinho... Um cão sem plumas pedindo que digam: Nós o amamos, cachorrinho... Mas como é difícil ouvir um "eu amo você", principalmente quando nunca se fala um...

É... Este é o pior nó da solidão: o de não conseguir dizer  "eu amo você".

6 Comentários:

Carol disse...

Disso não escapamos. Por mais que se queira fugir.

Quem nunca se pegou sozinho mesmo rodeado de um montão de gente, né?

Adorei. Talvez esse texto traduza um pouquinho do momento que atravesso...

Beijão, Nelson!

Nelson da Cunha disse...

É, Carol...A solidão é algo assim, pois depende de como nos sentimos num determinado momento. Às vezes, queremos estar sozinhos e o dia-a-dia não deixa; noutras ficamos sós mesmo sem querer e mesmo rodeado de pessoas...Assim é!

Rubem Barreto disse...

Isso demonstra (feliz ou infelizmente) a seara da SOLIDÃO para ser desbravada. Em certos pontos ela atinge a todos de um mesmo modo, em outros pode apresentar-se de maneira mais peculiar. Será que cada um tem sua própria SOLIDÃO?

Nelson da Cunha disse...

Sabe, Rubem...A solidão é subjetiva, e tudo aquilo que carrega subjetividade é próprio do singular e não do plural. Por isso, acho que a solidão é um estado de alma, um ruflar de asas que se perde no interior de cada um de nós...

Roberto Carlos Rangel disse...

Não se iluda, amigo Nelson. Que solidão existe é fato, mas não para aqueles que tanto a conhecem. Afinal, não precisa ser mau aquele que muito conhece a maldade, pois saberá como superá-la em virtude do bem, assim como, não há que ser vã a sensação de sentir-se só, mesmo que muito só, pois será oportunidade de conhecer os muitos que somos. Sendo tantos num só, quase não há lugar para a solidão, a não ser quando sozinhos entre muitos que somos em si mesmos, como você bem encontou. Hamlet, um dia, quase se cura, não fosse ter que perguntar tanto a si mesmo, " ser ou não ser, eis a questão"...
Conhecendo a si e à vida como parece conhecer-se o dono dessas suas organizadíssimas palavras, quem quer que o seja, está longe de não dispor da opção por uma doce e bela companhia, mesmo que sejam tênues lembranças ou tenros sonhos - coisa de quem ainda pode ser muitos e muito mais...
Bons fluidos vindos do seu texto, em boa hora... Abraço.

Cláudia Costa disse...

Perguntei-me porque enviou este texto específico, mas na verdade já sabia. Solidão em prosa ou verso,em poesia, pensamento ou realidade, ainda é algo que toma conta...Há os que expõe, há os que só sentem, mas sempre estará lá...dançando ao redor e dentro da gente.

 
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