Pequenas crônicas que retratam a realidade tanto dentro das escolas quanto dentro do Brasil, este meu Brasil brasileiro e bem-humorado Brasil...

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Sexta-feira, Março 26, 2010

O Episódio do Pitoco...

E as rodas dessa bicicleta giravam. E girava a minha cabeça. Assim, girando cada vez mais rápido, minha cabeça era ainda a minha cabeça, mas as rodas já não eram rodas. Eram apenas os raios que giravam, raios de sol de uma manhã bonita, mochila às costas, eu pronto pra roça, vergonha da roça, horror da roça, eu rumo à roça.

E eu não ia sozinho.

Pitoco, saltitante, saia na frente. E latia. Latia feliz. Feliz da companhia.

E não tinha rabo o Pitoco, por isso pitoco. E ia feliz. E eu, vergonha da roça, horror da roça, subtraia os caminhos, furtava a minha presença aos aglomerados, fugia dos amiguinhos, com vergonha da roça.

E o cachorro na frente. Saltitando. Latindo. Latindo feliz. Feliz da companhia.

E ia à frente. Cumprimentava um poste, cheirava outro, fazia no terceiro, demarcando território.

E eu atrás, esgueirando-me nas sombras da manhã, vergonha da roça, furtando-me aos conhecidos! E ia pelos atalhos, pela periferia, mochila às costas...

De repente, em meio à ciranda, o inusitado. Pitoco à frente, saltitante, feliz... Num ziguezague muito próprio dos caninos, aquele em que o animal finge que vai e acaba indo, o Pitoco foi-se, atropelado por um caminhão em alta velocidade.

Foi-se, mas não de imediato.

Gania na rua, arrastando as costas ensangüentadas. E olhava para mim, e seus olhos brilhavam, e pediam socorro, e se arrastava pela rua, e muitas crianças compadeciam-se dele, e ele gania, pedia socorro, e os seus olhos cravaram-se nos meus, e ficaram fotografados para sempre nas minhas retinas.

E o Pitoco ficara lá, ganindo, chorando, pedindo socorro, abandonado por mim que, vergonha da roça, horror da roça, não quis me expor aos circunstantes, fugindo, chorando, mas fugindo, olhos decepcionados do meu Pitoco, perseguindo-me para todo o sempre...

Foi a última vez que vi Pitoco. Mas o olhar de decepção do cachorrinho me acompanha até hoje como adaga cortando carne, como faca abrindo de fora a fora o abdômen de um cabrito.

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