Participei da missa de passagem de ano na Igreja Nossa Senhora Aparecida. As leituras e o evangelho versaram sobre a figura de Maria e sua importância no processo de encarnação de Jesus no meio dos homens.
Mais que participar da missa, estive atento ao sermão do Padre Robson e mentalizei detalhes importantes que podem ser livremente comentados à luz de uma realidade que está muito perto da gente, até por ser real. E é incrível como o real nos assusta.
E o padre fixou a maior parte de seu sermão na metáfora dos pastores em visita a Jesus na manjedoura. E a boa-nova transmitida aos menores na escala de profissões de Israel naquela época... Sim, Jesus apresentado aos menores, aos pobres, aos pequenos dos pequenos. Jesus então não viera da elite e nem para a elite. Jesus viera e veio para os pobres.
Inspiração divina do padre que tão bem conseguiu passar aquela imagem aos fiéis que participaram da última missa de 2009. Pastores de ovelhas, sujos, fedidos, roupas em frangalhos, a estes foi dada a dádiva de receber e propagar a grande nova.
Eis que o verbo deixa de ser palavra, deixa de ser semântica para ser algo concreto, palpável e como instrumento de propagação aqueles que eram considerados os menores, os sujos, fedidos, inaceitáves pastores de ovelhas...
Para se refletir bem e encaminhar a mensagem, olhar a própria vida, o ambiente circundante e nos perguntarmos hoje a quem seria ou a quem está sendo dado o presente de ouvir a boa-nova que é a presença do verbo feito carne entre nós, para sofrer na carne como sofremos, para morrer na cruz como morremos todos os dias?
Dirigir-se a pastores, falar aos pastores de ovelhas, era considerado vergonhoso para a elite de Israel. Pena que isso não tenha se perdido na história. Ainda ontem, o judeu Casoy ficou indignado num comentário na Bandeirantes porque dois lixeiros se congratularam e desejaram um ao outro um 2010 repleto de sucesso.
E considerou os lixeiros como o menor dos menores entre os trabalhadores brasileiros. Como se a profissão deles não tivesse nenhum valor prático para a sociedade e fossem medidos pelo que ganham como salário e não pelo que propagam como boa-nova.
Assim, nessa nossa realidade, é preciso repensar aquilo que vem da mídia, porque a elite brasileira tem um nariz muito sensível e a exemplo do povo de Israel, que não gostava do cheiro de ovelhas impregnado nos pastores, essa nova versão do preconceito também detesta cheiro de povo e a todos aqueles que estão marcados com cheiro de povo.
Assim, cada um com seu nariz. E principalmente, a cada um com seu cérebro e principalmente, a cada um com seu coração para que possa reconhecer a verdade no meio da sanha mentirosa que essa elite quer incutir em toda a nossa sociedade.
E a imprensa é o instrumento desse preconceito. Uma imprensa elitista, a serviço daqueles que sempre estiveram com as botas esmagando o pescoço dos fracos e que querem voltar a fazê-lo. E isso sim, isso é uma vergonha.
Porém, como articuladores e propagadores da boa-nova, a exemplo das ideias contidas no sermão do Padre Robson, cavemos nossas trincheiras no sabor da reflexão e com a desenvoltura que cabe aos sábios separemos o joio do trigo e regozijemo-nos no calor da massa, a massa de quem amo a briga, a raça.

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