Pequenas crônicas que retratam a realidade tanto dentro das escolas quanto dentro do Brasil, este meu Brasil brasileiro e bem-humorado Brasil...

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Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Sobre a Turma do Funil...

Estamos em novembro. E novembro é o mês do aniversário de nossa Cosmópolis. Assim, como singela homenagem deixo aqui um texto chamado



Crônica de um amor desmedido...

Cosmópolis é um trem. Um trem em movimento.
Pra lá, pra cá...pra lá, pra cá... Pra lá, pra cá...pra lá, pra cá...

Uma turma, a Turma do Funil...
Trilhos mágicos que fizeram e ainda fazem história...

E aqui, nesta terra sem palmeiras, mas com um Palmeiras sempre verde e verdejante, onde o Sabiá é santista e o Coringa não faz onda, uma real constatação se instala no dorso de uma estrela. E essa estrela é um grande coração pulsante, um coração que atrai, um coração que chama, que chama para os seus braços...

Alma do Cosmos... Alma do Cosmos...

E no principio, quiseram amarrar índio, prender índio... Mas índio não aceita chibata, índio não aceita chicote... Índio quis liberdade... Índio quis ser livre... Sempre livre... Por isso, agora apesar de poucos, depois da resistência, apesar de quase nada, depois da resistência, o índio também somos nós...
E ele também aqui, enfim livre...

Um dia, um outro foi arrancado de sua terra, roubado do convívio dos seus e deixado o próprio destino em mãos alheias. E pelos porões de grandes naves flutuantes, não pôde nem contemplar os mares...

Mas agora está livre...livre...Livre para poder escolher uma estrela no céu, e voando nas espáduas da própria vontade, escalar livremente o espaço e pousar nessa estrela chamada Cosmópolis.

E essa estrela é um grande coração pulsante, um coração que atrai, um coração que chama, que chama para os seus braços...
Alma do Cosmos... Alma do Cosmos...

E ele, o branco colonizador, olhos terríveis, de vidro, cara de mau, aqui também está, agora sem o chicote que açoitou muitas costas negras depois que descobriu esta terra, vindo de além-mar a serviço do rei. Tudo pela sede do ouro o qual foi levado para longe... E o ouro se foi, mas ficou, ficou um povo de ouro...

E eles foram chegando, chegando nesta terra de primores que tais não encontram por lá...E vieram da ponta da bota, vieram das terras altas, vieram das estepes para pousar aqui nesta estrelinha cintilante, neste coração abrasador que os acolheu como filhos...
Para fazer parte da Turma do Funil, para iniciar a história de uma cidade cujos louvores repousam a partir das mais longínquas rotas...

Cosmópolis... Cosmópolis...

E eles vieram para ser um pedacinho de todos nós...
Sim, Cosmópolis... Uma pequena estrela no universo... E que há mais de cem anos, por meio do trabalho do negro, por meio do trabalho do índio, por meio do trabalho do português colonizador, conquistou a sua primeira fase de grande Eldorado do planalto
Cosmópolis: Canaã universal, ponto de convergência de muitos povos, de muitas raças, para formar um só povo, uma só raça...

Cosmópolis: Cidade Universo.

Uma cidade que nasceu pelo poder de trabalho de uma grande turma, a Turma do Funil...Turma de muitas feições, de muitas cores, de muitos olhos negros, e castanhos, e azuis e verdes...

Por isso Cosmopolis... Porque polis vem do grego e significa cidade... E cosmo significa universo, o conjunto de estrelas, de planetas, de astros enfim que povoam aquilo que nos rodeia e que caminha até o infinito... E o infinito traz desafios que só a junção de várias mãos objetivando o mesmo fim são capazes de vencer...

Cosmópolis... Cidade Universo... Cidade de todos...

E com tudo isso, com toda essa mistura, passaram-se os anos 10...
Vieram os anos 20...
E depois os 30...

E a Turma do Funil foi adquirindo costumes próprios... Uma linguagem própria...
Linguagem rica e divertida... Como aquele episódio que muita gente jura de pés juntos que de fato aconteceu e que ilustra bem esse tipo de linguagem.

Os compadres se encontram na esquina da Avenida Ester com Rua Campinas e o primeiro vai logo zoando:
­­­− Cumpadi, o senhor num divia tê feito negócio caquele home... Eu conheço aquela tranquera lá do fundo das comporta...
− Bobei, cumpadi... (retruca o outro). Num consegui sartá de banda e perdi muito conto de réi...
− Vê lá, ein.. Se num vai cair de novo notra truta dessas... (o primeiro riu-se).
− Que isso, cumpadi? Vai ele, cavoco, sapeco, rebeca... disconjuro!
Sim, isso de fato aconteceu. Pelo menos é o que dizem os mais antigos, como o Paulão Frungilo, o maior cultivador de leguminosas da cidade segundo o Gilberto Careca.

Mas, findando parênteses, o tempo foi adquirindo contornos de modernidade...
Passaram-se os anos 40...
Vieram os anos 50...
E o verde dos canaviais, somado ao embriagante aroma das flores das laranjeiras, foi tomando forma na imensidão destas terras tenras e leves...

E o trem da Funilense continuava a rasgar o planalto...
Continuava a rasgar o planalto...
Rasgando o planalto... Rasgando o planalto... Rasgando o planalto.

Muita gente na vila, muito progresso, ferroviários, viajantes, vendedores de bugigangas das mais variadas espécies... Burras abarrotadas de cabraizinhos, abobrinhas, muitas abobrinhas... E a cidade cada vez melhor, muito divertida...

Grandes bailes... O conjunto do Rage em sua trajetória brilhante, grandes filmes no Cine Avenida... Cantinflas... o Tarzan... Faroestes variados... E um tal de John Wayne que matava muitos índios com um revólver em que as balas não acabavam nunca...

E lá no bar do Emílio a tal de televisão... Ah, o progresso...
E a Funilense rasgando o planalto, rasgando o planalto, rasgando o planalto...

E um dia...
Não mais rasgando o planalto, não mais rasgando o planalto, não mais rasgando o planalto...
E a turma do Funil se abalou... A ferrovia ia ser desativada...

Não mais os ferroviários, não mais as cargas... Os idos tempos românticos chegavam ao fim.. E a cidade inteira chorou...
Não mais rasgando o planalto... Não mais rasgando o planalto...

E aquelas linhas paralelas que trouxeram o início, perderam-se no infinito das cores...
E o Eldorado parecia se envolver num mar de verde e de pendões amarelos...
... e apenas num mar de verde e de pendões amarelos...
Não mais rasgando o planalto... Não mais rasgando o planalto... Não mais rasgando o planalto...

Mas eis que de repente...
A estrela de novo quer sorrir...

A pequenina estrela, de coração grande e abrasador, ouve a grande novidade...Canaã que é Canaã não pode ser Canaã apenas uma única vez.

E aqui, nessa estrela onde muitas raízes foram fincadas, uma nova Canaã está surgindo. De primeira, foram as cores e foram as raças de toda a Terra... Agora, com o ouro negro trabalhado logo ali na Replan, são todos os matizes... E que não são da ponta da bota e que não são das estepes e que não são das terras altas...

E que embora não sendo da ponta da bota e nem das estepes e nem das terras altas, trazem no sangue a lembrança das lonjuras...Homogeneizadas com o sangue desta terra sem palmeiras, com um Palmeiras verde e verdejante, um sabiá santista, e um coringa que não incomoda ninguém...
E são os sotaques carregados, os sotaques abertos, as grandes cabeças esplendorosamente achatadas nos polos... Mais uma vez, Cosmópolis faz jus ao nome... Mais uma vez, a Turma do Funil tem a oportunidade de ser aumentada...

Sim, e desta vez de perto... Muitos estão chegando... Mas não vêm de além-mar...Vêm de perto, muito perto... E já são um só... Resultado das misturas de todos nós... E vêm para trabalhar o ouro negro... E vêm para trabalhar não apenas os ventos que movem os moinhos, mas os moinhos que movem o mundo... E já não importam as cores da chibata e nem o peso amorfo das entranhas dos grilhões... O Cosmos, mais uma vez, é aqui... E a estrela é aqui...

Uma estrela que escolhi para voar em seu dorso.

Bem-aventurado é o ninho que a gente escolhe para adormecer porque aquele ninho em que se nasce, ali somente nascemos e sem oportunidade de opinar sobre a própria oportunidade de nascer... Mas o ninho que escolhemos, esse sim, esse é o ninho que faz transbordar o sentimento num coração que foi plantado num peito para deixar fluir o mais generoso e gratificado sentimento, numa declaração de amor tão desmedido como a própria falta de medida para o amor que se tem.

Cosmópolis é sonho que veio de longe, que desabrochou no leito dos horizontes e que como um caudaloso rio de águas magnéticas atraiu-me até aqui pela sereia que ele próprio é...

Sim, vejo, olho, sinto...Saio na janela para contemplar meu singular passado desfilando na linha do tempo,marejando os meus olhos de lágrimas e o coração de saudade...

Cosmópolis é sonho que veio de longe para fazer-me sonhar tão perto e de mais perto ainda pôr tijolo novo na construção...

E aqui está também você, imigrante de olhos azuis, de olhos verdes e cabelos cor de fogo, junto com o nativo de pele ruborizada, e com o negro forte da senzala livre, fechando o círculo de um sonho a mais...

Para começar outro círculo, com um novo sonho pra sonhar...

1 Comentário:

Roberto Carlos Costa disse...

Bela maneira de se conhecer uma cidade, um qualquer lugar, com sua história, emoções e anseios, além de saudade, memória, gosto, sob os auspícios de coloridos olhares e do afeto incontido de seus poetas... Valeu!Blog: http://tinyurl.com/robcarlos

 
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