Perdoem, leitores, a digressão que se segue, mas o foco em terceira pessoa pode discordar da forma com que o autor faz pulsar as palavras, principalmente quando esse autor as dispõe de uma humildade desmedida que deturpa as situações a serem narradas.
Pode não ser exatamente o todo dessa narrativa aqui, a humildade pode não ser tão excessiva assim, mas essa fluência bem próxima de exagerada do texto, com certeza inibe o perfil das personagens, de modo que elas ficam parecendo marionetes ao sabor do manuseio do autor, quadriláteras ao extremo, perceptíveis a olho nu, que uma racional terceira pessoa não pode permitir que escorra tão tranquilamente nas linhas da página seguinte.
Embora não se espere de uma batata o poder de arroto desfechado pelo caviar, assim também não se tira leite de pedra. Tudo porque aquela suspira, machadianamente, na névoa do desencanto como prêmio de consolação ao vencedor, enquanto a arraia graúda vocifera a arrogância própria dos insensatos, regurgitando o odor acre daquele...
Por isso: nem se perscrute tanto as estrelas, como também não se emirja tão peremptoriamente nas garras do chão poderoso.
Claro que Karenina não é nenhuma Ofélia em seu delírio dissimulado de amor a princípio e com traços palpáveis de realidade nas cenas à frente, e não prima por olhos ressacados, cuja obliqüidade deixou o casmurro ainda mais casmurro, como também não se conduz na dança de Bovary, buscando horizontes além das sandálias, mas talvez tenha um pouco da Inês do Gil, embora seguramente não seja uma Polyana simplesmente embrutecida.
O fato de ser de família camponesa, numa época em que privilégio era dádiva reservada aos nobres e clérigos, não não nos permite deixar essa moça sem identidade. Não ter privilégio não significa aceitação do fato em si.
Como naquele dia em que, Karenina, ainda menina, viu Frei Zenzo Zi e mais três padres, escoltados por guardas do Mosteiro da Eterna Luz, desmontar em sua aldeia natal, refestelarem-se na hospitalidade camponesa e depois, na calada da noite, apossar-se das mulheres da vila, violentarem-nas e ainda deixar como lembrança um sermão de louvação a Deus.E o Frei gesticulava calmamente de cima do cavalo, as moças desnudas caídas ao longo da rua estreita e sinuosa, cobrindo os seios com resto das roupas em frangalhos, enquanto os homens, velhos ou crianças, vigiados pelos guardas, ficavam a contemplar com horror e medo aquela figura balofa e fedorenta a proferir frases de louvação, de conforto e de paz, num cinismo dilacerante.
Amantes Virtuais
3 meses atrás

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