Pequenas crônicas que retratam a realidade tanto dentro das escolas quanto dentro do Brasil, este meu Brasil brasileiro e bem-humorado Brasil...

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Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Cruel ou perverso?

Não é apenas uma questão de semântica. É um misto de revolta e impossibilidade de agir para que o que aconteceu não acontecesse. Falo da morte da colega de trabalho, a Raquel. Assassinada pelo ex-marido na porta do local onde ela trabalhava. Uma morte fria, planejada até, agora vislumbro isso.

É justamente o que me leva a conjeturar sobre o que é ser cruel e o que é ser perverso. Lembrando sempre que esse também é um dos temas da minha obra "Pedrinho Malmequer e o segredo da última página".

Mas seria cruel ou perversa a mão armada que se defende para não morrer? E que bate para não apanhar, que enfrenta para não correr? Que faz um homem quando é picado por um pernilongo? Ato contínuo, de supetão, até por instinto de defesa, e pronto, lá está o inseto esmagado na ponta aguda do cotovelo. Claro que não fica nem o remorso...

E o mesmo homem, na esquina, no carro a carro, na batida, a ofensa do outro, o revólver no bolso? Ato contínuo? Supetão? Instinto de defesa? Mas ali já não é o pernilongo esmagado na ponta do cotovelo e sim outro homem estatelado no chão, esburacado pela bala certeira. E aí já foi... Não importa mais o remorso.

A ação perversa é injustificável. O difícil é conceituar o que é ação perversa. Às vezes não há morte, não há violência física, mas um sorrisinho de escárnio no canto dos lábios, ou a falta de cumprimento, ou uma mão estendida para o aperto que não é correspondida, tudo isso pode até ser mais perverso que a mais perversa das ações diretas do pior inimigo.

Perverso é aquele que desfecha vinte tiros na vítima e que meia hora depois volta para dar mais um... Perverso é aquele que olha nos olhos de uma criança e não vê refletidos os próprios olhos da criança que foi. Perverso é o homem que come o próprio homem não para ser mais homem, mas para ser mais animal que os próprios animais...

Perverso é o homem que nunca deu um tiro em ninguém, que jamais levantou a mão contra outro, que não cuspiu em ninguém, que não foi cuspido, mas que jamais achou que houvesse outro homem igual na face da terra. Perverso é o homem que só vê a si mesmo porque inconscientemente tem vontade de matar, de dar tiros, de cuspir nos rostos dos outros que o rodeiam e não faz isso porque é covarde demais até para mostrar essa perversidade.

Sim... Para haver perversidade é preciso haver deliberação, meticulosa deliberação, preparação do terreno, planejamento. Ser perverso é mais que ser cruel porque a crueldade pode ser simplesmente o resultado de um ódio doentio, traduzido numa ação momentânea sob a égide de uma circunstância singular... Isto é, alguém pode ser cruel em função do momento fortuito daquele ódio, e depois, conforme o caso, se arrepender do ato praticado.

A perversidade, porém, não admite erro, o homem perverso jamais se arrepende do que fez porque seus atos obedecem aos ritos da pluralidade de motivos que norteiam o conceito da razão.
Ação cruel praticada contra nós dói muito, mas é justificada pela fraqueza humana, que é sujeita às intempéries de um sistema nervoso complexo e indecifrável sob o ponto de vista da individualidade do ser e que torna todos os homens, indistintamente, meros animais.

A ação perversa praticada contra nós dói muito mais porque nela se constata a ação de outro homem, concebendo a maldade como arma de destruição coletiva de um agrupamento para imposição de hegemonia a outro grupo de homens.

Pena, mas nem um outro animal faz isso melhor que o próprio homem. É o que se viu.

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